Uma das primeiras vezes que me lembro de ter visto Dolly Parton quando criança foi em um talk show. Provavelmente no Late Night With David Letterman, embora eu não me lembre exatamente quem estava apresentando. Como eu poderia, se Parton, com seu sorriso largo, cabelo volumoso e… atributos avantajados, também estava na minha tela? Na iminência da puberdade e sentindo como minha existência no mundo estava mudando junto com meu corpo, perguntei à minha mãe por que Parton tinha aquela aparência. Ela respondeu que ela queria que as pessoas a olhassem. Que fazia parte do show business.
Muitos de nós nos deparamos com a imagem de Parton, que faleceu nio dia 25 de agosto aos 80 anos, antes mesmo de entendermos sua música. Era difícil não conhecê-la. O visual de Parton era tão marcante que era possível reconhecê-la apenas pela silhueta; era tão distinto que, quando participou de um concurso de drag queens imitando Dolly Parton, acabou perdendo. Mas o visual de Parton, como eu viria a descobrir, representava muito mais do que o mundo do entretenimento. Independentemente de ela se autodenominar “feminista” ou não, suas ações e suas canções retratavam uma artista que ansiava por um mundo que concedesse às mulheres as mesmas condições e oportunidades que os homens.
E ela tinha plena consciência de que, para as mulheres, grande parte dessa experiência começa com o simples fato de serem observadas.
Ser mulher, entendemos desde a mais tenra idade, é ser observada. Somos desejadas e julgadas, somos medidas pela grossura das nossas coxas, pelo tamanho dos nossos seios, pelo brilho do nosso sorriso. Algo é sempre grande demais; algo, pequeno demais. Nossa aparência conta uma história aos outros sobre as nossas próprias capacidades, em uma narrativa que não ajudamos a escrever. Parton, que se mudou para Nashville em 1964, deparou-se imediatamente com esse paradoxo. Seu ídolo de beleza na infância, segundo ela, era uma mulher a quem todos se referiam como “a vagabunda da cidade“, e seu guia era um exemplar do catálogo de lingerie sensual da Frederick’s of Hollywood (é apropriado que Parton tenha visto o fascínio numa mulher que todos os outros rejeitavam).
Então, ela desfiou o cabelo, delineou os olhos e adotou roupas chamativas e justas. Suas escolhas não foram exatamente bem recebidas por aqueles ao seu redor. “O principal conselho que as pessoas me davam era para mudar meu visual — para simplificar o cabelo e o jeito de me vestir”, disse Parton ao podcast WorkLife. “Para não parecer vulgar, ninguém nunca me levaria a sério, diziam.”
A resposta de Parton foi ousar ainda mais. Ela sabia que não havia como agradar a todos: a inteligência e a competência de uma mulher sempre estariam intrinsecamente ligadas à sua aparência. Você acha que uma mulher loira é burra? Ela optou por um loiro ainda mais intenso. Você acha que o ideal de beleza de uma mulher sulista é extravagante demais? Ela ousou ainda mais. Com esse trabalho, ela começou a desvendar nossas ideias e expectativas complexas sobre como uma mulher deve se apresentar. Ela sabia que ser mulher era uma performance.
Ao longo dos anos, quando as pessoas, constrangidas, perguntavam sobre seus seios em entrevistas, ela desconversava com uma piada: “Como as pessoas não olhariam? São tudo o que você vê”, disse ela ao The Guardian em 2011. O busto de Parton pode ter sido realçado, mas ela não estava apenas revelando o olhar silencioso que as mulheres sentem diariamente?
Enquanto escrevia o que se tornariam algumas das maiores canções country de todos os tempos, sua aparência desafiava qualquer ideal de como uma artista feminina “autêntica” deveria ser. Em termos de credenciais country, ninguém tinha mais do que Parton, mas ela estava longe do que pensávamos, e ainda pensamos, ser uma apresentação apropriada. Ela abraçou a palavra “falsa” e admitiu ter feito cirurgia plástica. Seu gênio estava disfarçado exatamente no oposto do que se esperava — e Parton sabia que nenhum tipo de mulher jamais poderia satisfazer as exigências da sociedade (o que tornou seu apoio à comunidade trans ainda mais impactante). “Se eu não puder ter sucesso com meu talento, então não quero fazer isso”, disse ela à Playboy, sempre querendo desafiar a desconexão de frente.
Dolly Parton começou a cantar sobre essas ideias desde cedo. Seu álbum de estreia de 1966, Hello, I’m Dolly, incluía uma música chamada “Dumb Blonde”: “Só porque sou loira, não pense que sou burra/Porque esta loira burra não é boba de ninguém”. Em seu álbum seguinte, Just Because I’m a Woman, os padrões duplos impostos às mulheres estavam no centro de suas preocupações. A faixa-título nasceu quando seu marido, CarlDean, perguntou à sua nova esposa se ela havia se relacionado com outros homens antes de conhecê-lo. Ela lhe disse a verdade.
“Eu já tinha feito sexo antes de nos conhecermos, mas não tinha mencionado isso, e ele não tinha perguntado”, disse Partonà Rolling Stone em 2003. “Estávamos casados há oito meses, felizes como nunca, e de repente ele resolve perguntar. Eu contei a verdade, e isso partiu o coração dele. Ele não conseguiu superar isso por muito tempo. Eu pensei: ‘Ora, qual é o grande problema?’”
“Just Because I’m a Woman” é a música que ela escreveu em resposta, mas não é a única crítica feminista no álbum. “The Bridge” fala sobre uma mulher que, abandonada pelo homem que a engravidou, tira a própria vida no mesmo lugar onde o relacionamento deles começou. Era 1968 e a revolução feminista estava acontecendo ao seu redor. Ninguém mais na música country, muito menos no Sul dos Estados Unidos, cantava sobre algo remotamente parecido. “The Pill”, de Loretta Lynn, ainda levaria alguns anos para ser lançada.
Mas Parton estava aprofundando-se em temas feministas (independentemente de usar ou não a palavra, o que ela evitava cuidadosamente). Seu álbum de 1970, no qual ela escreveu sobre entregar um filho para adoção (“I’m Doing This for Your Sake“), um natimorto (“Down From Dover“) e até mesmo sobre uma mulher que foi internada em um hospício após o marido ter um caso, presumivelmente por ser “histérica” (“Daddy Come and Get Me“), chamava-se Fairest of Them All. A capa mostrava Parton olhando para si mesma, geralmente impecável, em um espelho. Se outros tinham dificuldade em conciliar sua imagem com sua arte, esse era o problema deles, não dela.
Parton reforçou essa ideia em 2008 com uma música chamada “Backwoods Barbie”, que serviu como a história de sua própria vida e, mais uma vez, como uma resposta àqueles que a rejeitavam com base em sua aparência. “Sempre fui incompreendida por causa da minha aparência”, cantava Parton.
Nem todas nós usamos strass, mas Parton sabia que um dos maiores fardos que as mulheres carregam é o peso de serem observadas. Ela ajudou a tornar tudo isso um pouco mais leve.
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Sobre o que trata “As mulheres passam a vida sendo observadas. Dolly Parton redirecionou…”?
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