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Fury of Dracula e a modernidade dos designs antigos

Fury of Dracula sempre foi um jogo lendário. Lembro que, na época em que os jogos ainda custavam 180 reais,…

Fury of Dracula sempre foi um jogo lendário. Lembro que, na época em que os jogos ainda custavam 180 reais, via ele saindo por 600 ou até 800 reais em alguns casos aqui na Ludopedia. Um patamar atingido apenas por icônicos jogos que estavam Out of Print. E ele era isso! Imagina só: o jogo, que sempre foi o referencia de seu gênero (movimentação escondida) estava envolvido em uma briga da Fantasy Flight com a Games Workshop que levou pela quebra da parceria entre as duas empresas e retirada do mercado grandes títulos como Fury of Dracula, Chaos in the Old World (ainda sinto falta dele) e Forbidden Starts. Se existia um jogo que eu tinha certeza que nunca sairia no Brasil, era este!

Fast Forward para 5 anos depois, a Games Workshop renegocia a licença de FoD com a Wizkiz e a Galápagos já dentro do grupo da Asmodee traz esse jogo como se fosse apenas mais um de seus 47 lançamentos por mês. Mas será que, 15 anos depois da primeira versão do jogo editada pela FFG e 5 anos desde a última revisão de regras (uma eternidade no mundo dos boardgames), o Fury of Drácula ainda é um jogo que pode ser considerado moderno e em dia com a evolução que os jogos de tabuleiro sofreram? E o mais importante, será que ele ainda é um jogo bom?

Bem, a primeira coisa que você tem que entender com Fury of Dracula, é que ele é um jogo de 1987 que já sofreu 2 face lifts para ficar mais moderno, em 2005 e de novo em 2015. E em 87, ou até mesmo em 2005, o público alvo desses jogos eram ex-jogadores de RPG, acostumados com livros e mais livros de regras, algumas delas criadas especificamente para lidar com uma situação ou exceção A ou B. Eram jogadores acostumados a resolver conflitos e testes com rolagem de dados e a passar horas e horas sentados na mesa vivendo aquela aventura.

Então, quando Fury of Dracula chega, com um livro de regras de quase 60 páginas, várias exceções ou regras que você nem vai usar, e uma duração que pode variar de 1h30 a até 5 horas de duração, você entende que isso não foi problema para o jogo se o resto dele fosse bom e entregasse uma boa experiencia. E era. E essa era a cara de todos os jogos da Fantasy Flight nos anos 2000. Quem já jogou Runewars, Twilight Imperium 3, Forbidden Stars entende o quanto o design dos jogos era diferente. Os jogos “ameritrashes” não se importavam com o excesso de coisas por que o seu público não se importava.

E verdade seja dita: em 2015, na última revisão de regras, a FFG e a Games Workshop fizeram o possível para dar uma modernizada no jogo. Sairam os dados, mudaram a condição de fim de jogo e deram uma pequena reduzida nos detalhes para caber tudo dentro de 3 horas. Mas não dava para mudar da água pro vinho sem perder a essencia do jogo. E esta essencia era reconhecida e amada por grande parte dos fãs fieis do jogo, o que me leva ao segundo ponto: o jogo é bom? Sim, é!

Tendo feito todo esse disclaimer inicial, eu tenho que passar para a segunda parte da análise, o fato de que, mesmo com todos defeitos, este é um jogo que figura em uma boa colocação no meu Top 100 de todos os tempos e mais, ainda é, depois de 33 anos de vida e inúmeros outros jogos lançados, A REFERÊNCIA no gênero de movimentação escondida.

De uma forma geral, os jogos de movimentação escondida que eu já joguei, são muito focados em achar o bandido. Aqui, em Fury of Dracula, além de você achar o Drácula, você precisa derrotá-lo. E ele é mais forte do que praticamente todos os caçadores individualmente. Isso é bacana pois dá ao FoD 2 momentos de tensão, o 1o de descobrir os traços do Drácula e começar a tensão de estar próximo a ele, e depois, o do combate, eventual fuga do Drácula e até a perseguição contra um Drácula ferido.

A ideia do jogo é simples. 4 caçadores estão espalhados pela Europa enquanto o Dracula se movimenta escondido pelo tabuleiro. Os caçadores tem poderes variados, alguns como Mina Harker que pela sua ligação com o Dracula, consegue dizer se ele está na mesma região da europa que ela, o que ajuda em muito os caçadores a encontrá-lo. Durante sua movimentação, o Dracula vai deixando por onde passa rastros e armadilhas, que os caçadores irão encontrar caso passem pelas últimas 6 cidades onde ele esteve. Isso é, ao mesmo tempo uma dificuldade para os caçadores que passam a sofrer penalidades ou ter de lutar contra criaturas, mas é também um sinal de que eles estão próximos do Vampiro. E o jogo, que pode ser jogador de 2 a 5 jogadores funciona assim: 1 jogador de overlod jogando como Drácula e 1 a 4 jogadores controlando todos os outros caçadores.

Aqui o jogo entra em um defeito de design, que era comum e até proposital no passado, mas que pode ser contornado com a mesa certa: o Dracula fujão. Em uma mesa altamente competitiva, que joga o jogo como se fosse um eurogame onde se busca constantemente a maximização pura das percentuais de chance de vitória, o Dracula pode optar passar o jogo inteiro simplesmente fugindo dos caçadores. Embora seja possível achá-lo assim mesmo, vai haver uma série de partidas durando 3 até 4 horas onde vai haver uma sucessão de frustação de não encontrar o Dracula direito. E isso é um defeito do jogo? Com certeza!

Apesar disso, apesar de ser eurogame, eu gosto de jogar Fury of Drácula maximizando constantemente minha chance percentual de DIVERSÃO. O que significa por exemplo que eu, quando estou sozinho do outro lado a Europa com apenas um caçador próximo de mim, eu opto por atacá-lo e gerar o pânico de enfrenta sozinho um Dracula poderoso e, ao ver seus companheiros se aproximando para me cercar, eu sumo novamente na escuridão apenas parar aparecer mais a frente quando me conver. Esse estilo permite que o jogo tenha mais momentos épicos e divertidos. Permite inclusive que ele seja mais rápido pois as condições de fim de jogo podem ser avançadas através de vitórias do Drácula em batalhas individuais.

Desta forma, as regras do Fury of Drácula não me amedrontam. Eu tenho sim que consultar o livro de regras várias vezes por situações que eu não vivi ainda ou não lembro mais e como dono do jogo acabo jogando muito mais vezes do que gostaria de Drácula, mas consegui, desta forma, um equilibrio de vitórias dos 2 lados da batalha e ao mesmo tempo, manter as partidas divertidas.

Também acho que ele se diferencia de todo o gênero a incluir no jogo situações de meio de jogo que mantém a mesa engajada para além da procura do Dracula. Essa coisa de deixar armadilhas pelo caminho, ter de lutar contra aliados do Dracula ou ir aos poucos buscando poderes no baralho dá ao jogo uma vida e interação no meio, muito maior do que os outros do genero. E ainda, a decisão de abrir baralhos de evento durante o dia, onde você pode garantir um evento bom, mas para isso precisa abrir mão de se movimentar, ou escolher se movimentar de dia e abrir eventos a noite, quando você compra 1 aleatório, é uma ótima tensão a cada rodada.

Resumindo, Fury of Dracula é como uma obra de arte barroca. Cheio de excessos, de detalhes, de abundância mas ainda assim uma obra de arte. Em 5 anos de hobby, ele foi um dos primeiros jogos que comprei e um dos poucos que jamais pensei em vender, mesmo tendo uma coleção que prima mais pela rotatividade do que pelo colecionismo (em geral mantenho minha coleção com cerca de 50 a 70 jogos e vou vendendo sempre que compro algo). Acho que ele tem um publico cativo no hobby dos ameritrashes mais raiz. Aquelas pessoas que adoram jogos de terror, temas sombrios e um pouco de aleatoriedade e até mesmo sorte.

Para aqueles que querem um jogo limpo, moderno, com um excelente trabalho de Desenvolvimento e sem amarras soltas, mas na mesma pegada, eu recomendo muito irem atrás de Narcos The Boardgame, dos autores brasileiros Fel Barros e Renato Sasdelli e lançado lá fora pela CMON (por que não chegou no Brasil ainda, só deus dabe). Como eu já disse no meu texto Narcos e a gameficação de Netflix, ele é tudo que Fury of Dracula não é, e também recomendo muito ele. Mas como diz a história, a Itália no meio de uma dinastia sanguinária cheia de corruptção e traição, produziu, na sua fase mais caótica, artistas como Da Vinci, Rafael e todo o Renascentismo. Enquanto isso a Suiça, com 2 mil anos de pura paz, racionalidade e precisão, desenvolveu, no máximo o relógio de cuco.

É no caos que surge a arte. É no excesso que se produz momentos memoráveis. E por mais que meus elogios ao Narcos são verdadeiros e diria que ele até funciona melhor para uma grande parte dos jogadores, é o Fury of Dracula que eu penso em por na mesa quando vamos jogar um ameritrash raiz. Então, se você é desses, desfrute esse momento do mercado nacional, momento que eu, no passado, já duvidei muito que iria acontecer.

PS: Muita gente gosta de perguntar se determinado jogo funciona bem de 2 jogadores. Mecanicamente, funciona. O jogo é jogado da mesma forma em 2 ou em 5. 1 jogador controla o drácula e outro controla os 4 caçadores. Agora, obviamente, você perde na interação da mesa, na discussão dos planos contra o drácula etc. Eu prefiro jogar ele com 3 a 5. Mas a verdade é que pra mim, essa frase vale para qualquer outro jogo já lançado.

Perguntas frequentes

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Sobre o que trata “Fury of Dracula e a modernidade dos designs antigos”?
Fury of Dracula sempre foi um jogo lendário. Lembro que, na época em que os jogos ainda custavam 180 reais, via ele saindo por 600 ou até 800 reais em alguns casos aqui na Ludopedia. Um…
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Camila Pacheco

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