NARRATIVAS & SOM · FICÇÃO CIENTÍFICA EM PORTUGUÊS
Fanfic
Braulio TavaresPatuá Editora168 páginasLançado em 2019 Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não…

Braulio Tavares
Patuá Editora
168 páginas
Lançado em 2019
Toda literatura nasce tanto da vida quanto da própria literatura, de modo que não acho que esteja exagerando quando chamo de fanfic esse conjunto de contos escritos como resultado da leitura de histórias alheias.
É dessa forma que o escritor Braulio Tavares recebe o leitor em sua mais recente coletânea de contos, Fanfic. O termo fanfic é uma abreviação de fan fiction, que são histórias escritas por fãs utilizando personagens e lugares de histórias já existentes. Tavares usa o termo, aqui, para designar a influência que outras obras da literatura tiveram na escrita de seus contos. Porém, ao ler as vinte e duas narrativas que compõem o livro, a impressão que fica é que são menos uma fanfic e mais uma homenagem, ou paródia.
Isso é muito evidente no conto curto que abre a coletânea: Finegão Zuêra. Aqui, Bráulio Tavares recria o estilo experimental de James Joyce em Finnegan’s Wake (1939). Nele, Joyce se utilizou largamente de neologismos, fusão de palavras, fluxos de consciência e períodos longuíssimos, para buscar uma multitude de significados e interpretações. Não à toa, é considerada uma das narrativas mais difíceis de ser traduzida na história da literatura.
O que Bráulio Tavares faz aqui parece ser uma homenagem, criando um conto curto em que descreve o quarto de um tal Trupizupe utilizando as mesmas técnicas de Joyce:
(…) ali naquele quarto que de dia cheirava a bicho morto e de noite cheirava a bicho vivo, inabitável e não-repartível como o próprio Trupizupe, indevassável e invisível como a casinha de Snoopy, quártico que malcheirava como o diabo, como o Cão, como um cão, como um canil, como um canino com cárie até o canal, como o dente mais ruim da arcada mais ruína de toda a Boca do Lixo!
Porém, esse conto não é nada como os outros vinte e um de Fanfic. Até, na verdade, podemos dizer que nenhum dos contos deste livro é igual aos outros, dada a originalidade de temas, situações e estilos pelos quais o autor transita de uma narrativa para a próxima. Haxan, por exemplo, é um conto longo que imagina um futuro distópico em que hologramas se tornaram realistas a ponto de influenciarem o mundo à sua volta, enquanto Concerto Noturno acompanha um desconhecido pianista durante uma caminhada, bêbado, em uma cidade sem nome do leste europeu. O conto mais longo do livro, O Molusco e o Transatlântico, é uma estranha space opera que também apareceu na coletânea Fractais Tropicais (2018).
Há apenas um fator que une todas as histórias de Fanfic: a disposição ao insólito. Por mais realista ou introspectiva que a narração de alguns contos possa parecer a princípio, o leitor pode ter certeza que em algum momento ela irá invadir o (ou ser invadida pelo) universo do fantástico e da ficção especulativa. E não é à toa: Braulio Tavares é uma das grandes autoridades nacionais na produção e pesquisa da ficção fantástica e da ficção científica. Além de já ter outros livros de contos, poemas, e um romance publicados, mantém grande parte de sua produção no blog Mundo Fantasmo, e participou da Flip de 2019, na mesa Santo Antônio da Glória, junto da escritora argentina Mariana Enriquez.
Apesar de contar com narrativas de diferentes tamanhos (todas excelentes), a escrita de Bráulio Tavares, nesta coletânea, parece brilhar com muito mais força nas narrativas mais curtas. Nelas, devido à concisão e ao recorte escolhido pelo autor, o fantástico se deixa apenas entrever na história, e as lacunas propositais são preenchidas pela imaginação do leitor (terreno fértil para tudo que foge à realidade).
É o caso, por exemplo, de O Polvo, em que um cefalópode se encontra no meio de acontecimentos insólitos em um laboratório inglês de biologia marinha. O mesmo vale para Vale da Maldição, em que uma sociedade tribal se depara com um estranho objeto metálico de grande poder. E, em um dos contos mais originais e divertidos, Sete Ovnis, em que nos apresenta uma lista de sete encontros de diferentes pessoas com os tais objetos voadores. A homenagem, aqui, parece ser às obras cômicas de Douglas Adams, pois a graça fica por conta da reação de alguns desses personagens durante esses encontros:
Terzio Pastore, 61 anos, Ravena, passou mais de dez anos frequentando uma colina próxima à fazenda onde vivia, colina esta que se dizia ser frequentada por extraterrestres, e a única coisa estranha que viu em todo esse tempo foi uma gigantesca forma metálica quadrada, maior que a colina, elevando-se ao céu por trás dela, mas como não correspondia à forma de um disco ele decidiu não levar em consideração, e nada publicou.
Bráulio Tavares tem atuado há quase trinta anos no campo da ficção fantástica e ficção científica, e sua bagagem literária se mostra com toda força neste Fanfic por meio das influências e das homenagens. Porém, acredito, sua influência e sua prosa têm tanta força e originalidade que outras fanfics também aparecerão (se é que já não apareceram) no panorama da ficção especulativa brasileira, prestando homenagem às suas obras.
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Ivan Nery Cardoso é escritor e tradutor, autor da coletânea de contos Cães noturnos, em processo de publicação.
[ Resenha publicada originalmente no portal Porco Espinho. ]
Perguntas frequentes
Respostas institucionais sobre esta cobertura, fontes e limites editoriais.
- Sobre o que trata “Fanfic”?
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